Daniel Day-Lewis

24 Fevereiro, 2008 | Categorias: Biografias

O cinema encarou com profunda tristeza a notícia de que Daniel Day-Lewis irá oficialmente ”reformar-se”, depois de concluir o seu trabalho em ”Gangues de Nova York”. Mas Martin Scorsese conseguiu que tudo não passe-se um desabafo, porque se ia perder, assim, um dos grandes actores dos anos 1980 e 1990, considerado o ”De Niro britânico”. Segundo Day-Lewis, não há muito mais que ele pode oferecer à sétima arte, e vice-versa. ”Não aconteceu nada durante as filmagens de ‘Gangues’ que tenha me feito pensar ‘Por que não faço isto com mais frequência?”’, desabafou o actor.
É de se compreender. De certa maneira, nos seus trinta anos de carreira, Day-Lewis ofereceu muito mais à cinematografia mundial do que alguns actores medíocres conseguem em muito mais tempo. Conhecido pelo o seu processo de total imersão nas personagens que interpreta, Day-Lewis foi aclamado pelas suas actuações em ”O Meu Pé Esquerdo”, ”Em Nome do Pai” e ”As Bruxas de Salem”.
Daniel Michael Blake Day-Lewis, nasceu a 29 de Março de 1957, na cidade de Londres. e de certa maneira, as artes sempre estiveram no sangue. O seu avô materno era Michael Balcon, director dos famosos estúdios Ealing Studios. A sua mãe era a actriz Jill Bacon e o seu pai, o poeta Cecil Day-Lewis. Não é à toa, portanto, que o pequeno Daniel tenha enveredado pelo cinema - bem como a sua irmã mais velha, a documentarista Tamasin Day-Lewis.
Day-Lewis estudou em escolas públicas, mas deixou as aulas aos 13 anos. Para conseguir um papel no drama ”Domingo… Maldito Domingo”, de John Schlesinger. É claro que se apaixonou pelas artes dramáticas e, dedicado, empenhou-se em apreender o máximo possível acerca do ofício. Tanto que só voltaria às telas (da televisão, diga-se de passagem) dez anos depois, quando já se considerava maduro o suficiente para expor o seu talento e a sua técnica.
Até lá, procurou embasamento no teatro. Estudou com as melhores companhias britânicas, como a do Old Vic e a Royal Shakespeare Academy, onde foi bastante elogiado. ”Se não me permitissem actuar como válvula de escape, não haveria lugar para mim na sociedade”, conta.
Em 1981, ele estava de volta, com dois pequenos papéis nos filmes para a televisão ”Frost in May” e ”Artemis 81”. O seu primeiro filme relevante viria no ano seguinte, com o drama ”Gandhi”, à respeito do líder pacifista indiano. A sua participação, no filme é bastante é pequena só fazia o pepel de um miúdo de rua chamado Colin.
E continuaram a seguir-se papéis pequenos em filmes de pouca relevância, como ”How Many Miles to Babylon?”, no qual interpretava um homem rico que acompanhou o seu amigo de infância, um operário, na Primeira Guerra Mundial; e ”Revolta no Pacífico”, no qual contracenou com Mel Gibson, Anthony Hopkins e Liam Neeson; e ”My Brother Jonathan”, obscuro drama feito para a televisão.
Para chamar a atenção, Day-Lewis precisava de um papel ao mesmo tempo difícil e chocante, que desafiasse a ele mesmo e ao público. A sua grande chance viria com ”A Minha Bela Lavanderia”, que tornaria o seu nome e o do realizador Stephen Frears famosos. O filme retrata a paixão entre um inglês e um árabe que, juntos, são donos de uma lavanderia e enfrentam o preconceito da sociedade londrina.
A profunda actuação de Day-Lewis causou rebuliço ainda maior na indústria cinematográfica americana porque ”A Minha Bela Lavanderia” estreou-se em Nova York simultaneamente com um outro filme seu, ”Quarto Com Vista Sobre a Cidade”, no qual interpreta uma personagem totalmente diferente. Ele encarna Cecil Vyse, o aristocrático noivo da protagonista vivida por Helena Bonham Carter. A sua versatilidade simplesmente deixou Hollywood rendida ao seu talento. Por ambos os papéis, a Associação de Críticos de Nova York deu-lhe o prémio de melhor actor secundário do ano.
Dois anos depois, as expectativas que rodeavam Day-Lewis confirmaram-se num outro filme ”A Insustentável Leveza do Ser”, de Philip Kaufman. Passado na Checoslováquia da década de 1960, o drama abordava a estranha relação a três de Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin, pouco antes da invasão russa na chamada Primavera de Praga. Também em 1988, Day-Lewis tentaria variar o seu estilo ao entrar numa comédia ”Stars and Bars”.
Em 1989, o actor conseguiu o seu primeiro Óscar, e único até ao momento pelo tocante retrato de um homem com paralisia cerebral em ”O Meu Pé Esquerdo”. Esta era a única parte do seu corpo que ele conseguia controlar, e a utilizava habilmente para pintar e escrever. Ficou famosa a decisão de Day-Lewis de não sair da cadeira de rodas mesmo quando não estava ser filmado, para compreender ao máximo o sofrimento do seu personagem que era inválido.
Além do Óscar, o seu sucesso neste ano rendeu-lhe um dividendo inesperado, o seu relacionamento com a actriz francesa Isabelle Adjani. Inesperado, claro, apenas para ele, pois o resto do mundo já o considerava extremamente bonito (a revista inglesa Empire elegeu-o, em 1990, uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo, cinco anos depois, ele estava na lista das 100 estrelas mais sexys do cinema, na lisonjeira 11ª posição).
O namoro de cinco anos com Adjani gerou o seu primeiro herdeiro, o pequeno Gabriel Kane, nascido em Abril de 1995. Mais tarde, Day-Lewis envolveu-se com Rebecca Miller, filha do dramaturgo Arthur Miller, com quem está casado desde 1996. Neste relacionamento teve mais dois filhos, Ronan Day-Lewis (nascido em 1998) e Cashel Blake Day-Lewis (nascido em 2002).
Depois de ”O Meu Pé Esquerdo”, Day-Lewis tornou-se requisitado para todo e qualquer papel dramático nos EUA e na Inglaterra. Seguindo no sentido contrário, ele fez questão de tornar-se ainda mais criterioso com a escolha do seus papéis. A pressão foi tão grande que o seu esperado retorno ao teatro, encenando ”Hamlet” com o National Theatre Inglês, foi abreviado quando, uma noite, ele abandonou a meio da peça devido a ”exaustão nervosa”.
Só em 1992, voltou às ao trabalho com um filme de acção: ”O Último dos Moicanos”, de Michael Mann. Para viver a pele de um índio que protege a filha de um coronel britânico no meio da guerra franco-indígena, Day-Lewis teve de fazer ginásio por mais de um ano para ganhar um corpo à altura da sua personagem. Aos que duvidavam que um inglês pudesse encarnar um nativo americano, Day-Lewis respondeu com o seu típico processo de imersão: ao longo dos meses de gravação, recusou os cigarro industrializado, por exemplo. Fazia questão de enrolar os seus próprio cigarros, como os índios moicanos no século XVIII.
Depois, Day-Lewis aceitou o convite do seu amigo Jim Sheridan, que lhe havia dado um Óscar com ”O Meu Pé Esquerdo”, para interpretar o seu novo filme, ”Em Nome do Pai”. Tratava-se de um drama a respeito de um irlandês injustamente acusado de participar num atentado terrorista do IRA. E a história, repetiu-se mais uma chuva de nomeações a grandes prémios, Óscar, Globo de Ouro, BAFTA… O filme também alterou profundamente a percepção de Day-Lewis a respeito da Irlanda, a ponto de pedir cidadania irlandesa.
No mesmo ano, ainda, ele entrou em mais um filme ”Idade da Inocência”, de Martin Scorsese. O resultado foi controverso, o que talvez explique porque, a partir de então, ele tenha-se tornado cada vez mais recluso. O seu próximo filme ocorreria apenas três anos depois, e provavelmente apenas porque o longa-metragem era baseado na mais famosa peça do seu sogro, Arthur Miller. Trata-se do drama ”As Bruxas de Salem”, no qual a sua ex-amante, vivida por Winona Ryder, lança numa vila americana do século XVII uma histeria inquisitiva ao afirmar que as suas colegas são bruxas com pactos com o diabo.
Mais uma vez, o filme ficou aquém das expectativas da crítica, rendendo apenas uma nomeação ao Óscar para Miller, pelo argumento, e para Joan Allen, que interpretava a resignada esposa de Day-Lewis. O actor, porém, não se intimidou e retornou em 1997 com mais um drama irlandês realizado por Sheridan: ”O Boxeur”. A parceria deu sinais de cansaço e nem mesmo a poderosa presença de Emily Watson poupou o filme da crítica.
Day-Lewis desgastado com as críticas desvaforáveis, passou nada menos que cinco anos na Itália, viver humildemente como sapateiro. Para se ter uma idéia, recusou o papel de Aragorn em ”O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” sem nenhum pudor. E não retornaria aos cinemas se não tivesse sido enganado por Scorsese, Leonardo DiCaprio e Harvey Weinstein, que é o chefe da Miramax. Os três admitiram publicamente que atraíram Day-Lewis para Nova York sob falsos motivos apenas para convencê-lo, conjuntamente, de que deveria interpretar o Talhante no épico ”Gangs de Nova Iorque”.
Mal sabia o actor que o compromisso lhe exigiria quase um ano de trabalho ininterrupto, devido aos inúmeros problemas que a produção teve. E, por todo este tempo, Day-Lewis permaneceu utilizar, dentro e fora das filmagens o carregado sotaque da sua personagem. Além disso, também teve aulas com um talhante de verdade para poder entender o ofício da sua personagem - o violento líder da gangue dos nativos, que disputa com o gangue dos irlandeses o controle de uma parte de Nova York.
Mais uma vez, o esforço valeu a pena. O filme dividiu a opinião da crítica, mas houve um consenso geral que indicava o trabalho de Day-Lewis como a melhor coisa de ”Gangs de Nova Iorque”. Seguiu-se uma nomeação ao Globo de Ouro de melhor actor dramático e uma aos Óscares 2003.
Depois deste esforçado trabalho no filme Day-Lewis, descansou, e só apareceu em 2005 para entrar no filme “A Balada de Jack e Rose”, e mais recentemente o filme “Haverá Sangue” do realizador Paul Thomas Anderson onde interpreta uma personagem sem escrúpulos. Filme este que já rendeu o Globo de Ouro e o prémio BAFTA para melhor actor, e muito possivelmente pode lhe render o seu segundo Óscar.

Óscares

Actor
O Meu Pé Esquerdo (89)
Haverá Sangue (07)


Nomeações

Actor
Em Nome do Pai (93)
Gangs de Nova Iorque (02)

Outra Filmografia

Actor
Domingo… Maldito Domingo (71)
Gandhi (82)
Revolta no Pacífico (84)
The Insurance Man (85)
A Minha Bela Lavandaria (85)
Quarto Com Vista Sobre a Cidade (85)
Nanou (86)
Um Gentleman em Nova Iorque (88)
A Insustentável Leveza do Ser (88)
Dentista Apaixonado (89)
O Último dos Moicanos (92)
A Idade da Incência (93)
A Bruxas de Salém (96)
O Boxeur (97)
A Balada de Jack e Rose (05)

Outros Prémios

- Ganhou um Globo de Ouro para Melhor Actor “Haverá Sangue” (2007)

- Recebeu 4 nomeações ao Globo de Ouro de Melhor Actor - Drama, por “Meu Pé Esquerdo” (1989), “Em Nome do Pai” (1993), “O Lutador” (1997), “Gangs de Nova Iorque” (2002).

- Ganhou 3 prémios BAFTA de Melhor Actor por “Meu Pé Esquerdo”, “Gangs de Nova Iorque” e “Haverá Sangue”.

- Recebeu 2 nomeações ao BAFTA de Melhor Actor, por “O Último dos Moicanos” (1992), “Em Nome do Pai” (1993).

- Recebeu uma nomeação ao European Film Awards de Melhor Actor, por “Meu Pé Esquerdo” (1989).

- Recebeu uma nomeaação ao MTV Movie Awards de Melhor Vilão, por “Gangs de Nova Iorque” (2002).

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